Encontros com Graciliano: Literatura e política

Fonte: O Globo

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Graciliano Ramos como um ímã. Isso se refletiu em sua obra literária, marcada por forte inserção nos contextos sociopolíticos e econômicos, pela solidariedade com os oprimidos e pelo compromisso com o ideal da emancipação humana. O sentimento e a observação participante do ambiente social foram elementos decisivos na formação intelectual de Graciliano, tanto quanto as leituras sistemáticas que fazia dos clássicos e de ensaios voltadas à compreensão crítica do mundo. O marco desse processo foi o noticiário sobre a Revolução Russa de 1917, da qual se inteirou pela assinatura de jornais do Rio de Janeiro. Embora ainda não fosse comunista (só se filiaria ao Partido Comunista Brasileiro em agosto de 1945), logo simpatizou com ideias libertárias, numa reação às imposturas e desigualdades vigentes. Houve assim íntima relação entre o que escreveu e o que sentiu no contato com a terra, os homens e os conflitos do Nordeste pobre e esquecido, durante a infância, a adolescência e a juventude.

Se a política influenciou o universo temático e as convicções filosóficas de Graciliano, jamais o tutelou nem o submeteu a seus desígnios. Ele soube preservar a autonomia do homem de letras frente às injunções ideológicas, mesmo que seus romances e contos abordem a complexidade da vida social e, não raro, denunciem as tramas da baixa política, as ambições de poder e as marginalizações daí decorrentes. Para o autor de “Vidas secas”, a literatura não pode ser reduzida à ideologia, pois a especificidade do trabalho criativo se sobrepõe às exigências políticas imediatas e aos fervores partidários. Ele não aceitava constrangimentos à liberdade autoral, nem tolerava que escritores se reduzissem a meros porta-vozes de grupos de pressão. “Eu não admito literatura de elogio. Quando uma ala política domina inteiramente, a literatura não pode viver, pelo menos até que não haja mais necessidade de coagir, o que significa liberdade outra vez. O conformismo exclui a arte, que só pode vir da insatisfação”, declarou em entrevista ao jornalista Newton Rodrigues. A raiz da equação era entrelaçar arte e política, sem que uma subjugasse a outra. Queria proteger as palavras ameaçadas pelo apetite devorador dos preceitos ideológicos.

Graciliano reivindicava uma efetiva transformação, sem em nenhum instante negociar a substância estética implícita na revelação da realidade. Foi sensível para entender que, numa obra literária digna deste nome, forma e conteúdo evidenciam as tomadas de posição artísticas e ideológicas do autor, sem que tenha de ceder ao ouro falso de slogans e fórmulas propagandísticas. Graciliano precisou apenas de folhas de papel e frases concisas para lançar um potente facho de luz contra as injustiças do mundo. “A arma do escritor é o lápis”, ele definiu.

*Dênis de Moraes é professor do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense e autor de “O velho Graça: uma biografia de Graciliano Ramos” (Boitempo, 2012)

 

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Sobre thomasrinos

Amante da Literatura, de Minas, Guimarães Rosa e Política... Ler, ver e pensar.
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